Pilares da transformação analítica e o uso de dados na tomada de decisões

O expert em Data Science José Borbolla explica os fatores que influenciam a implementação de uma cultura analítica na empresa e mostra como deve ser a tomada de decisões baseadas em dados.

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Apesar dos temas do universo de dados serem reconhecidos como indispensáveis e estratégicos no mundo dos negócios, ainda é pequeno o percentual de empresas que foram capazes de promover mudanças estruturais e organizacionais para que fosse possível extrair dos dados todo potencial que oferecem. Um dos motivos para isso é a dificuldade em avançar no processo de transformação analítica e de aplicação dos dados na tomada de decisões. 

Neste artigo, queremos compartilhar a visão do expert José Borbolla, que é Senior Data Science Manager LATAM na Bayer Crop Science e membro do board de Dados da Tera. Ele pontua três pilares essenciais para que a transformação analítica se torne uma realidade na organização. 

Também vamos falar sobre aspectos centrais na relação entre dados e tomada de decisões, e apontar algumas ações que profissionais e lideranças de empresas podem tomar para acelerar seu processo de evolução cultural digital e analítica.

Continue a leitura e confira.

Quais são os pilares da transformação analítica?

Em um artigo para a Harvard Business Review em 2019, os analistas da consultoria McKinsey, Tim Fountaine, Brian McCarthy e Tamim Saleh, compartilharam estudos que mostravam que a maioria das empresas não estava conseguindo escalar suas iniciativas com dados. 

O problema não era a falta de recursos para investir em novas tecnologias ou contratar pessoas. Os insights recolhidos pelos analistas mostraram que o investimento na aquisição de novas tecnologias não produziu o impacto esperado na evolução analítica, e que o maior desafio estava no rompimento de barreiras culturais, organizacionais e de modelos de liderança.

José Borbolla, que já acompanhou diversas empresas nesses processos de transformação digital e analítica, explica que são necessárias, num primeiro momento, mudanças na mentalidade e no olhar para que seja possível iniciar o processo de evolução organizacional.

Alguns líderes falam: "ah, eu ouvi falar que dado é importante, mas na hora que eu tenho que fazer algo internamente, eu tenho barreiras organizacionais, de hierarquia, de cultura". Isso porque o paradigma, a lógica por trás, precisa ser completamente diferente. Se a gente quer falar sobre mudança, a gente precisa ter uma outra estrutura organizacional, um outro paradigma de liderança. [...]"

Assim, os três pilares da transformação analítica no negócio estão relacionados à cultura, à estrutura organizacional e ao paradigma da liderança. Como você pode ver, nenhum desses três aspectos tem a ver com tecnologia. Isso porque ela é apenas uma parte da solução. 

Cultura

Um estudo da Mckinsey mostrou que apenas 8% das organizações estão tendo sucesso na realização das mudanças estruturais necessárias que permitem a adoção de Inteligência Artificial de maneira generalizada. 

A “transformação da cultura" tem se revelado um desafio muito maior do que a implementação de novas tecnologias e ferramentas. Em geral, as empresas querem tomar decisões orientadas a dados, mas mantêm processos e mindsets antigos.

Um equívoco comum, por exemplo, é imaginar que bastaria contratar um time de profissionais de dados para "resolver o problema dos dados" na empresa. No entanto, mais do que ter um time de perfis majoritariamente técnicos, o que os estudos mais recentes revelam é que empresas que aumentaram os níveis de alfabetização em dados, apresentam níveis maiores de maturidade analítica e performance.

Leia também: Data literacy: entenda a importância da alfabetização de dados 

Borbolla explica que, quando falamos de dados hoje, não estamos falando apenas de uma profissão, mas de um conjunto de habilidades que todas as pessoas da empresa precisam desenvolver.

A solução não é ensinar todo mundo a mexer com novas ferramentas. A solução passa por elevar os níveis de letramento em dados (data literacy), ou seja, ensinar todo mundo a ler, analisar, interpretar e argumentar com dados. Enquanto todas as áreas de negócio e todos os níveis hierárquicos não tiverem maiores níveis dessa habilidade, vai ser difícil mudar o cenário atual.

Estrutura organizacional

Outro pilar para a transformação analítica é a adaptação da estrutura organizacional para as demandas e complexidades do mundo atual. Na maioria das empresas com estruturas organizacionais tradicionais, os dados e informações costumam ficar isolados dentro das respectivas áreas e silos. Esse elemento é um dos obstáculos mais centrais no processo de evolução da cultura analítica.

José Borbolla aponta que essa estrutura que essa estrutura mais rígida nasce para resolver problemas de um mundo e uma época que não existem mais.

O processo de avanço acelerado das tecnologias que testemunhamos nas últimas décadas está transformando radicalmente o mundo em que vivemos. Se na primeira metade do século XX —  quando emergiram os paradigmas tradicionais de gestão,  organização etc — havia problemas relacionados, por exemplo, à escassez de informação, hoje vivemos em um mundo diametralmente oposto. Isso sugere a necessidade de atualizarmos nossos paradigmas e modelos para darem conta dessa nova realidade e dos desafios que ela nos oferece.

Assim, é preciso reconfigurar aspectos estruturais e organizacionais das empresas para criar as condições indispensáveis para que dados possam, de fato, apoiar processos de tomada de decisões.

Quando a gente fala de mudança na estrutura organizacional, a gente está falando em um nível de transversalização do acesso a informação muito maior.

No entanto, como já destacamos, quando afirmamos que não se trata "apenas" de adquirir as novas tecnologias, para endereçar os obstáculos deste complexo processo de evolução cultural, precisamos entender mais sobre o nosso contexto organizacional e nossos processos decisórios para, só então, compreender como a tecnologia poderá nos ajudar.

Esse processo passa, necessariamente, por um amplo retreinamento/recapacitação das pessoas que atuam na empresa, para que possam não apenas extrair destas novas tecnologias o máximo que elas oferecem, mas especialmente para que elas saibam interpretar dados, realizar análises e traduzir as suas descobertas em  decisões de negócio que produzam efeitos tangíveis e mensuráveis. Novamente, voltamos ao lado humano desse processo.

 Se fosse simplesmente ter o dado, mostrar o dado, colocar em um data lake, falar para a pessoa ir e procurar as respostas, o Google não teria a dificuldade de tomar decisões. Mas esse processo é tão mais complexo do que simplesmente comprar a ferramenta mais nova, que o próprio Google criou uma área nova lá dentro para auxiliá-los a melhorar os processos decisórios.

Liderança

Mais um aspecto essencial na transformação analítica do negócio é a mudança no paradigma de liderança e na forma de se preparar como uma pessoa que lidera sendo analista de dados.

Pessoas em posição de liderança são as principais responsáveis pela influência na maneira que a organização toma decisões em todos os seus níveis. Por isso, elas devem ter um entendimento claro sobre as características e especificidades destas novas tecnologias de dados, em especial as mudanças que elas demandam, seja em nível organizacional, seja no olhar e entendimento necessários para a implementação de processos decisórios orientados por dados.

Segundo José Borbolla, existem posicionamentos e habilidades que líderes precisam adotar e desenvolver.

É crucial que haja uma nova liderança equipada com um novo jeito de pensar, de estabelecer novos critérios de mensuração, de ressignificar sua relação com o erro e de atualizar os processos decisórios, antecipando obstáculos, planejando investimentos maiores em educação, integração e adoção do que em tecnologia e que seja capaz de priorizar projetos e frentes de trabalho que produzam resultados no curto e médio prazo.

Nova call to action

Como os dados precisam ser usados na tomada de decisões? 

Um dos grandes equívocos quando o tema é uso de dados é pensar que eles dão respostas prontas para os problemas de negócio. A verdade é que eles são recursos valiosos para a tomada de decisões organizacionais, mas apenas se forem usados de forma estratégica e contextualizada, partindo de um entendimento mais amplo sobre o desafio de negócio que se pretende superar.

Ter acesso a mais dados não se traduz, direta e linearmente, em melhores decisões. Borbolla pontua que nós temos uma tendência a pensar que o processo de tomada de decisões organizacionais será garantido “apenas” por um maior volume de dados disponível. No entanto, existem diversos aspectos centrais que precisam ser considerados se o nosso objetivo é melhorar o processo decisório a partir do uso de dados. 

De um lado temos aspectos cognitivos, a maneira que nosso cérebro processa informação e todos os elementos que influenciam esse processamento (como os tão famosos vieses cognitivos). Por outro lado, sem as mudanças organizacionais já mencionadas, sem a evolução do paradigma de liderança, ainda estaremos conservando obstáculos para a evolução da cultura analítica

Por isso, falar sobre dados não é, necessariamente, falar sobre resposta certa, mas sim sobre um apoio sólido ao processo decisório. A forma de interpretar o dado ou de decidir o que fazer com aquele dado é uma decisão humana. E isso parte do entendimento que cada pessoa tem sobre o problema. 

Sem redesenhar essa ideia dentro da nossa cabeça, a gente não vai conseguir colocar em prática quase nada de dados dentro das companhias onde a gente trabalha.

Como profissionais e empresas podem fomentar a cultura analítica?

Agora que você já sabe que a cultura analítica não está relacionada apenas com a adoção de ferramentas, queremos deixar algumas lições do expert José Borbolla para profissionais e empresas que querem avançar na transformação analítica e tomar melhores decisões. Veja o que você pode fazer desde já.

  • Reconhecer que este novo conjunto de habilidades é imprescindível para o sucesso futuro no curto, médio e longo prazo;

  • Buscar, desde já, profissionais que tenham estas diferentes habilidades mais bem desenvolvidas e desenvolver estratégias para aumentar os níveis de alfabetização em dados (data literacy) em todas as áreas de negócio da empresa;

  • Conduzir testes para avaliar os níveis de habilidades digitais e analíticas em todos os níveis e áreas;

  • Elaborar planos de aprendizagem individualizados de acordo com as necessidades das pessoas colaboradoras e áreas de negócio;

  • Desenvolver jornadas de aprendizagem baseadas em projetos reais;

  • Dar visibilidade sobre este processo de mudanças aceleradas e da importância destas novas habilidades para todas as pessoas da empresa, em todos os níveis hierárquicos;

  • Estabelecer parcerias estratégicas com parceiros que sejam especializados nestes temas para o desenvolvimento de trilhas e soluções que atendam às demandas da companhia (detectadas, por exemplo, por meio dos assessments já mencionados).

Esperamos que este artigo tenha ajudado você a ampliar sua visão sobre o que os dados realmente representam na tomada de decisões do negócio. A tecnologia em si não tem caráter positivo nem negativo, mas é moldada pela forma como a usamos. Por isso, é essencial desenvolver a habilidade de trabalhar com dados de maneira responsável e inteligente.

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